Proler encerra com chave de ouro

Por Suzana Mafra

Se para alguns abrir um evento com chave de ouro basta, para o PROLER não. Talvez por isso o comitê (ou o destino) deixou para a última noite a palestra do Cleber Fabiano da Silva.

Cleber consegue levar a plateia à fruição estética abordando um tema teórico, no caso, a literatura africana. Exemplo de como professores podem trabalhar com teoria e literatura sem transformar a aula num fardo obrigatório.

A apresentação do grupo Muzenza da FURB, proporciou momentos de aproximação à cultura africana. Trouxe também, nas palavras do líder do grupo, informações desmistificadoras sobre a história dos negros no Brasil.

Assim, fechou-se o ciclo de palestras do 14º encontro regional do PROLER. Despedimo-nos com a intenção de manter aberto o círculo, para tecermos a manhã e o amanhã com mais leitura.

Tecendo a manhã
Um galo sozinho não tece a manhã:
ele precisará sempre de outros galos.

De um que apanhe esse grito que ele
e o lance a outro: de um outro galo
que apanhe o grito que um galo antes
e o lance a outro; e de outros galos
que com muitos outros galos se cruzam
os fios de sol de seus gritos de galo
para que a manhã, desde uma tela tênue,
se vá tecendo, entre todos os galos.

E se encorpando em tela, entre todos,
se erguendo tenda, onde entrem todos, no toldo
(a manhã) que plana livre de armação.

A manhã, toldo de um tecido tão aéreo
que, tecido, se eleva por si: luz balão.

João Cabral de Melo Neto

 

*Integrante do Comitê Regional do Proler pela Secretaria Municipal Educação de Brusque.

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Oralidade e ficção

Por Suzana Mafra*

A terceria noite do ciclo de palestras do 14º Encontro Regional do PROLER abriu com a apresentação cultural “Palavra musicada”, por Lieza Neves, Patrícia de Souza e Emiliano de Souza. No repertório, textos de Rubem Alves e Clarice Lispector, intercalados com cantigas de roda. A plateia silenciou para ouvir a leitura do outro.

Foram convidados para o sofá a professora doutora Janice Gonçalves, como palestrante, e o professor Ricardo Machado, como mediador. A palestra levou o público a refletir sobre memória e oralidade. Será que registramos do jeito que vemos e ouvimos ou reorganizamos a fala, influenciados por quem nos pergunta? Somos parciais ou imparcias num depoimento? Toda transcrição comporta alguma transformação do oral. O registro da oralidade passa por um filtro, de maneira que não podemos mais afirmar se a escrita é um registro ou uma ficção. Janice ressaltou a importância dos professores trabalharem com projetos de oralidade e memória, uma forma de estabelecer vínculos mais estreitos entre escola e comunidade.

Num dos contos lidos de Clarice Lispector na apresentação “Palavra musicada”, a protagonista ganha uma fantasia de carnaval feita de papel crepom, em forma de pétalas de rosa. Será que a escritora viveu a experiência, quando tinha oito anos, e a registrou de forma organizada e lírica? Não sabemos, mas certamente o escreveu com maestria.

O ciclo de palestras encerra hoje, quinta-feira, com a palestra “Diálogos Brasil – África na Literatura Infantil e Juvenil”.

*Integrante do Comitê Regional do Proler pela Secretaria Municipal Educação de Brusque.

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Ler é ser

Por Suzana Mafra*

A segunda noite do 14º Encontro Regional do PROLER começou com poesia. Não a poesia comportada que estamos acostumados a apreciar nos salões de leitura e saraus literários, mas a poesia cantada do projeto “Versos (En)cantados”, da Banda Swami de Blumenau. A banda trabalha com poemas de autores consagrados brasileiros, do Barroco ao Modernismo. É tradição, nos encontros regionais do PROLER, trazer programação cultural e literária e, na medida do possível, unir as duas.

Durante a apresentação musical, quadros com retratos dos poetas brasileiros ficam expostos em frente ao palco, na sequência cronológica dos períodos literários e da apresentação dos textos. “Via Láctea”, de Olavo Bilac e “Canção do dia de sempre”, de Mario Quintana estavam no repertório. O jovem que ainda não foi mordido pelo encatamento da poesia brasileira, precisa ouvir a Banda Swami tocar o poema “O Bicho”, de Manuel Bandeira (e todos os outros, claro!).

Com o título “Leitura para jovens leitores: revisando o hoje”, o palestrante da noite, Miguel Rettenmaier, iniciou o diálogo apresentando um panorama da evolução das concepções sobre leitura. Pontuou detalhes de estudos atuais pertinentes ao tema e ressaltou a importância da linguagem e da literatura na constituição do sujeito, finalizando com a expressão: “Ler é ser”. O professor Deschamps, graduado em Letras, foi quem mediou a palestra.

Na primeira noite de evento, o símbolo escolhido para desvelar a paixão pela leitura foi o sapato vermelho, inspirado na crônica de Mario Prata. Nesta segunda noite, a paixão se revelou nas rosas vermelhas distribuídas à plateia por Michel Jaques da Banda Swami, e na emoção com que Miguel Rettenmaier falou da Jornada de Literatura de Passo Fundo.

Mais uma noite de casa cheia. O evento prossegue hoje e amanhã, sempre às 18h30.


Fotografias

Disponibilizadas as imagens da noite de abertura do 14º Encontro Regional do Proler de Blumenau captadas pelo Fotógrafo Marcelo Martins, acesse: https://profiles.google.com/prolervale/photos
Em breve estaremos disponibilizando as demais!

*Integrante do Comitê Regional do Proler pela Secretaria Municipal Educação de Brusque.


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Noite de ouro com Mario Prata

Por Suzana Mafra*

Os organizadores de um evento desse porte somente conhecem o tamanho do público quando o evento acontece. Iniciar um evento pago com a casa cheia não é para qualquer um. E não se tratou de um público qualquer, mas de plateia qualificada, preparada para ouvir, sentir, pensar.

Na abertura, as autoridades de Blumenau usaram poucas e sábias palavras para expressar o valor da leitura, ressaltando a importância do evento para Blumenau e região. A equipe do comitê do PROLER foi apresentada e merecidamente aplaudida. Emocionada, a coordenadora do comitê Sandra Cristina da Silva, falou sobre o desafio gratificante de atuar no movimento em prol da leitura.

Se dava gosto de olhar a plateia, de tão bonita, outras coisas deram gosto de ouvir. E que gosto. As leituras das Amigas da leitura de Gaspar fez com que o público se perguntasse admirado: de onde vinham aquelas vozes tão apropriadas ao texto de Mario Prata, eram gravadas? E as moças que liam estavam onde, no céu?

Então chegou a vez do Mario, o Prata, o escritor, mediado pelo escritor e historiador Viegas da Costa. O Mario falou como quem canta, falou como um sabiá cantaria para uma plateia perfeita, com a delicadeza de uma rosa.

Nem todo escritor é generoso em seu discurso, Mario Prata foi, abriu o coração. Relatou detalhes do processo de escrever, tanto de fatores internos que influenciam a escrita, quanto externos. Na verdade, ele deu uma aula sobre escritura.

Mario falou para apaixonar. Quem sabe, resida aí o problema da leitura, na falta de paixão. Como incentivar a leitura sem ser um apaixonado por leitura? E isso Prata fez com maestria, arrebatou a plateia, deixou paixões. Essa é a mágica da literatura, de um bom texto e de um diálogo excepcional: o arrebatamento.

Ao final da apresentação cultural, as amigas da leitura de Gaspar, Viviane Luís Wilbert, Marlene Almeida Santos e Darlene Janete da Silva Zimmermann, ousadamente jogaram um sapato vermelho pro Mario, em alusão ao sapato vermelho da crônica lida. Ele, excelente escritor que é, aceitou o objeto e o levou consigo durante a palestra. Na mesa de apresentação do evento, entre livros e outros objetos decorativos, o exibido sapato vermelho, símbolo da paixão.

O 14º Encontro regional do PROLER acertou ao trazer o escritor Mario Prata, abriu com chave de ouro as portas da paixão pela leitura.
O evento que iniciou ontem, 09/05, vai até o dia 12, quinta-feira.

 

*Integrante do Comitê Regional do Proler pela Secretaria Municipal Educação de Brusque.

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História Oral: desafios para o século XXI

Marieta de Moraes Ferreira, Tania Maria Fernandes e Verena Alberti (orgs.)

Traz o panorama e as perspectivas da história oral, traçados por especialistas de diferentes países. Os textos discutem várias possibilidades de uso da história oral: como instrumento de pesquisa, como mecanismo de organização e mobilização social e como agente de construção de identidades. Trata também de temas cruciais para o entendimento do século XX, como os efeitos da II Guerra Mundial e da guerra fria e a chamada ‘desindustrialização’ do final do século. O livro permite, assim, acompanhar o debate em torno de novas problemáticas e antigas questões, fundamentais para o desenvolvimento de estudos e projetos em história oral, em diferentes áreas do conhecimento.

Acesse o livro online, clique aqui! 

Sugerido por Gláucia Maindra da Silva, integrante do Comitê Regional do Proler pelo Arquivo Histórico José Ferreira da Silva, via Fundação Cultural de Blumenau.

 

 

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As Unhas

As unhas, como todo homo sapiens sabe, vêm das garras de nossos avós macacos. Parece-me que foi o que restou, além do cóccix, também conhecido como uropígio ou sobrecu (sem acento, pois o assento é mais abaixo). Foram-se os anéis e ficaram as unhas. E qual é a função da unha hoje em dia? O corte. Só existem – como os cabelos – para serem cortadas. As moças, além de cortar, pintam, colorem e posam. Cortar a unha requer certo engenho e alguma arte. Não me lembro da primeira vez que cortei a unha sozinho. Mas devo ter feito algum estrago. Não existia o trim e foi na tesourinha mesmo. Creio ter me dado muito mal, pois passei a roer até já ter uns trinta anos de idade quando alguém me disse que roer unha significava insatisfação sexual. Parei imediatamente, o que não fez minha performance sexual melhorar, mas deu-me o trabalho de ter que cortá-la algumas vezes por mês. Eu tenho uma amiga (já avó) que rói até hoje. Das mãos e dos pés. A dos pé, com o passar dos anos e dos quilos, passou a ficar difícil. O que fez ela? Cortava com a tesourinha e armazenava numa bela caixinha de prata, revestida internamente por reluzente veludo grená. Dava vontade, ela ia à caixinha. E ai de quem mexesse naquilo. Mineiro e macho, nunca fiz as unhas dos pés. Até que um dia, num spa, uma bichinha saiu da pedóloga (este nome, sei não) com os pés perfeitos e orgulhosos de si mesmo. Dei uma olhada e o pé da bicha estava mesmo muito interessante. No cair da tarde, ninguém vendo, preparei a cabeça e fui lá e fiz o pé. Adorei. A pedóloga (este nome excita) perguntou se eu não queria fazer as mãos. Aí seria demais para a minha virilidade. Mas agora morando numa ilha – e como ninguém me conhece – resolvi fazer as unhas das mãos. Mas sem pintar. Coisa simples, rápida. Sabe que ficou legal? Me senti meio viado só uns dez minutos. Jurei que seria aquela a única vez. Mas elas estão crescendo e eu estou titubeando.Tudo culpa dos macacos. Em compensação o meu cóccix ninguém tasca. Um negócio que também se chama sobrecu é para ser tratado com um certo respeito. Os macacos que me perdoem. Sou um homo sapiens. Afinal, a mesma língua que nos chama de homo sapiens, sentencia: – Homo est animal bipes ratiomale. Ou seja, o homem é um animal bípede dotado de razão. Ou ainda: – Te hominem esse memento! Lembra-te que és homem!

 

O texto acima foi extraído da revista VOGUE RG de 12 dez. 2002. Disponível em: http://www.marioprataonline.com.br/

Sugerido por Lúcia Kistner, integrante do Comitê Regional do Proler pela Biblioteca Pública Municipal Dom Daniel Hostin, via Prefeitura de Gaspar.

 

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Pra Cumemuié, Uai

– Pra cumemuié, uai.Não fosse pelo microfone do repórter, poderia se dizer tratar-se de um filme bíblico. O sujeito estava todo coberto de lama, junto com mais trinta mil iguais a ele, escavando a terra lá em Serra Pelada. O documentário era antigo, é claro, mas passou na televisão outro dia. E o mineirinho ali, ao ser perguntado por que queria achar ouro e ficar rico, não pestanejou: pra cumemuié, uai. Claro. Que outro motivo ele teria? Só fiquei na dúvida se era para conquistar a sua mulher ou para transar com qualquer mulher. Provavelmente a segunda hipótese.O Cacá Rosset já tinha esta teoria há muitos anos: tudo que o homem faz, tudo, é com um único objetivo: cumemuié. O cara faz um esforço desgraçado para ficar rico pra quê? O sujeito quer ficar famoso pra quê? O indivíduo malha, faz exercícios pra quê? Mulher! Pode ser até a própria. Mas a verdade é que é a mulher o objetivo do homem. O pavão também é assim. Os animais são assim. Os bichos só pensam nisto. Já as bichas, pra cumeomi.Fico imaginando aqueles ministros todos lá na posse e um dizendo para o outro, enquanto posam para fotografias: vai rolar muita mulher aqui no pedaço. O jogador quando faz o gol pensa a mesma coisa. O artista em close na novela, tem certeza. Aquele candidato a prefeito naquela cidadezinha. Para o que ele quer aquele pequeno poder?As mulheres, antigamente, ficavam trancadas dentro de casa e se tratavam e ficavam bonitas apenas para os seus homens. Aí começaram a dar liberdade pras danadas e deu no que deu. O mundo ganhou vida, além da beleza, é claro.Pode continuar a ler, minha querida, que as barbaridades vão parar por aqui. Pode parar de me achar machista, machão ou coisa parecida. Tudo que eu quis dizer é que o homem vive em função de você. Vivem e pensam em você o dia inteiro, a vida inteira. Se você, mulher, não existisse, o mundo não teria ido pra frente. Homem algum iria fazer alguma coisa na vida para impressionar a outro homem, para conquistar um sujeito igual a ele, de bigode e tudo. Um mundo só de homens seria o grande erro da criação.Já dizia a velha frase que “atrás de todo homem bem sucedido existe uma grande mulher”. O dito está envelhecido. Hoje eu diria que “na frente de todo homem bem sucedido existe uma grande mulher”.É você, mulher, quem impulsiona o mundo. É você quem tem o poder e não o homem. É você quem decide a compra do apartamento, a cor do carro, o filme a ser visto, o local das férias. É mesmo para você que vai o ouro extraído lá na lama. Bendita a hora em que você saiu da cozinha e, bem sucedida, ficou na frente de todos os homens.E, se você que está lendo isto aqui, for um homem, tente imaginar a sua vida sem nenhuma mulher. Aí na sua casa, onde você trabalha, na rua, nas telenovelas. Só homens. Já pensou? Filmes só com homens? Romance sem uma Capitu ou uma Madame Bovary? Um casamento sem noiva? Um mundo sem cinturas e saboneteiras? Um mundo sem sogras? Enfim, um mundo sem metas.Tá certo o mineirinho de Serra Pelada. Todo o ouro do mundo para as mulheres. E, aos homens, um abraço.

 

O texto acima foi extraído da revista ÉPOCA de 20 out. 2003. Disponível em: http://www.marioprataonline.com.br/

Sugerido por Lúcia Kistner, integrante do Comitê Regional do Proler pela Biblioteca Pública Municipal Dom Daniel Hostin, via Prefeitura de Gaspar.

 

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Cueca e o Buraco da Cueca

Eu já escrevi aqui sobre as cuecas, eu sei. Mas hoje é sobre o buraco das cuecas. Sobre as braguilhas (vê se isso é nome que se apresente). Vamos ver a evolução das cuecas, desde que inventaram a dita cuja (aliás uma invenção fundamental para a última gota, que é mesmo sempre dela). Como se sabe a primeira cueca foi uma folha, conforme nos ensina a Bíblia Sagrada. Como você pode observar, evoluiu muito, de lá pra cá. Até que se chegou à cueca batizada pelo Tom Jobim de samba canção. Veio a Zorba e todo mundo quis se vestir como o Anthony Quinn, o grego. A samba canção saiu de moda. Mas depois voltou. E voltou com tudo. Todo mundo começou a usar as cuecas que o Tom Jobim usava. Inclusive eu. Me sinto mais confortável, com a vida mais solta, respiro melhor, não me sinto preso e já passei da idade de passar vergonha depois de dançar abraçadinho. Pois bem, a cueca samba canção tinha (eu disse tinha) um braguilha, que é por onde a gente enfiava a mão para achar o danado e colocá-lo para urinar. Para outras coisas também. Bastavam alguns dedos da mão esquerda para ter o elemento ali, livre e solto. Mas aí, algum gênio resolveu fechar as braguilhas. Agora elas vêm costuradas. Tem ainda o formado da braguilha, uma espécie de barra da calça mas, se você enfiar a mão ali, vai ver que está fechada. Está costurada. Lacraram! Só um gênio poderia inventar isso. E agora, como é que eu tenho que fazer? Segunda questão, para que o arremedo da braguilha se a coisa ali está entupida? O problema ficou sério. Se antes você enfiava três dedos ali e já tinha o material à mão, agora a coisa complicou e muito. Você tem duas possibilidades e, para ambas, você tem que enfiar quase o braço inteiro lá dentro. A primeira é, usando agora as duas mãos, abaixar a cueca e urinar por cima, digamos assim. Mas, ao fazer isto, comprimimos a bexiga e nunca urinamos tudo que deveríamos. Aí, não adianta chacoalhar, porque a coisa vai escorrer perna abaixo. A segunda possibilidade, é enfiar os dois braços até a parte de baixo da cueca e sacar por ali o nosso pênis (desculpe usar esta palavra que só os urologistas usam. Perguntam para a gente: “e o pênis, como vai?” Como se o pênis foi um nosso tio, o Tio Pênis), eu dizia, tirar o pênis por baixo com as duas mãos. Este jogo é mais perigosos ainda, porque exige maleabilidades incríveis. Alguém aí, que fabrica cuecas, pode me explicar porque fecharam o buraco da cueca? E não pense você, amável leitora, que uma tesourinha resolve o problema. Não, de maneira alguma. Você acaba com a cueca. A coisa foi feita – inexplicavelmente – para complicar o nosso simples prazer de fazer xixi, para nos jogar num mundo escuro para o qual não fomos nem criados e muito menos educados. Acho que deveríamos nos unir e fazer uma greve contra estes fabricantes. A Greve do Xixi. Acho que, se a gente ficar um mês sem fazer xixi, esses caras se tocam e nos devolvem o buraco que custamos séculos para conquistar. Tá na Bíblia Sagrada.

 

O texto acima foi extraído da coluna que o escritor mantém no jornal “O Estado de São Paulo”. Disponível em: http://www.marioprataonline.com.br/

Sugerido por Lúcia Kistner, integrante do Comitê Regional do Proler pela Biblioteca Pública Municipal Dom Daniel Hostin, via Prefeitura de Gaspar.

 

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Filho é Bom, Mas Dura Muito

Mario Prata

— Aproveita agora, porque, depois que o seu filho nascer você nunca mais vai ter sossego na vida. Você nunca mais vai dormir.
— Aproveita agora, que ele ainda não tem cólicas noturnas e ainda mama nas horas certas, porque depois a sua vida se transformará num verdadeiro inferno noturno.
— Aproveita agora, que os dentinhos dele não começaram a nascer e, quando isso acontecer não vai ter Nenedent que acalme nem ele nem você. — Aproveita agora, enquanto ele não engatinha, porque, quando começar a arrasar a casa e a derrubar cadeiras e bibelôs e lustres e a comer jornal, só vai dar dor de cabeça.
— Aproveita agora, antes que ele comece a andar. Aí acaba o sossego. É o perigo de ele bater a cabeça nas quinas das mesas, cair e meter a boca no chão, puxar panela no fogão. É um transtorno, filho andando. Ele correndo pela casa e você atrás.
— Aproveita agora, enquanto ele ainda não está na fase do “Por quê?”, porque depois você não vai conseguir ler nem jornal nem livro e nem ver televisão. E vai ter que explicar sempre o inexplicável.
— Aproveita agora, que ele ainda não sabe ler e pedir o que quiser no restaurante. A única vantagem é você não precisar ficar traduzindo os filmes para ele.
— Aproveita agora, enquanto você programa as férias dele e ele ainda não ouviu falar no Disneyworld, porque você vai ter que pegar filas de duas horas e enfrentar montanhas-russas no escuro.
— Aproveita agora, que ele ainda não é tarado por música, porque, quando ele resolver ouvir “música” na sua casa — com ou sem os amigos —, até os vizinhos mais simpáticos irão reclamar. E não pense que ele vai tocar aquelas músicas do seu tempo, não.
— Aproveita agora, que ele ainda não entrou na adolescência. Pois, quando entrar, você nunca mais vai ter sossego, nunca mais vai dormir Não se esqueça da íntima relação entre a palavra adolescência e adoecer. Não ele, mas, sim, você.
— Aproveita agora, que ele ainda não está nem fumando maconha e nem acabando com o seu uísque e aquela cervejinha que você tinha certeza que estava na geladeira te esperando do trabalho.
— Aproveita agora, que ele ainda não está andando em más companhias, porque você vai ter que aturar figuras saídas sabe-se lá de onde, com cabelos, brincos e tatuagens que você jamais poderia imaginar um dia conviver.
— Aproveita agora, que ele ainda não tomou nenhuma bomba e você ainda acha que ele é tudo que você sonhou, porque, quando ele repetir de ano, você fará — para você mesmo — a eterna pergunta: “Meu Deus, onde foi que eu errei?”.
— Aproveita agora, que ele ainda não decidiu que faculdade cursar porque a escolha dele não vai nunca coincidir com os planos que você fazia para ele, quando ele ainda engatinhava.
— Aproveita agora, que ele ainda não entrou na faculdade, porque, quando entrar, vai pedir um carro para ele ou usar o seu.
— Aproveita agora, que ele ainda avisa quando vai dormir fora de casa, e você pode dormir sossegado e não pensar em ligações desagradáveis para a polícia, o hospital e, o pior de tudo, para o IML.
— Aproveita agora, que ele ainda não se casou, porque, depois, ele nunca mais vai te visitar a não ser para pedir dinheiro emprestado.
— Aproveita agora, enquanto ele ainda não tem filhos, porque, quando tiver, é você quem vai tomar conta deles nos fins de semana. Seu sossego chegará ao fim, logo agora que você se aposentou.
— Aproveita agora, que ele ainda não se separou da primeira esposa, pois, quando isso acontecer, ele virá morar novamente na sua casa.
— Aproveita agora, que ele ainda te ajuda com um dinheirinho, porque a sua aposentadoria não dá para nada, pois a segunda mulher dele vai ser contra a ajuda.
— Aproveita agora, porque ele está pensando em te colocar num asilo de velhinhos.

PS: A frase do título é do Marcelo von Zuben, dentista brasileiro que mora em Portugal, pai do Murilo e da Úrsula.
O texto acima foi extraído do livro:
PRATA, Mario. 100 crônicas. São Paulo: O Estado de S. Paulo, 1997. 231p, il.

Sugerido por Elaine Regina Narciso Castelain, integrante do Comitê Regional do Proler pela EBM Francisco Lanser, via SEMED Blumenau.

 

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A Borracharia

Por Mario Prata

Tudo evolui no Brasil. Menos a borracharia e o Stédeli. Mas não vamos falar do último. Nos fixemos das borracharias. Já notou? São exatamente iguais às borracharias da nossa infância, quando íamos lá com nossos pais. Inclusive os borracheiros parecem ser os mesmos. Parecem feitos de borracha, não envelhecem.

Há algumas décadas não devem mais nascer garotos que dizem: vou ser borracheiro quando crescer. Para cada borracharia existem dois borracheiros. Um mais velho (que é para quem você vai pagar no final do serviço) e o mais jovem, que é quem pega duro.

Duvido que alguém já viu uma borracharia limpa. Para ser uma boa borracharia ela deve ser imunda. Não é suja, é imunda mesmo. Assim como os borracheiros. Eles não lavam as calças e as camisetas há séculos.

Não há lugar para se sentar. Jamais. Você tem que ficar em pé esperando o serviço. E acompanhando atentamente.

A coisa começa na porrada, literalmente. Um super-martelo e o cara bate pra valer no nosso pneu para tirar a câmera de ar e, com uma alavanca vai girando o pé com uma maestria invejável. E tira para fora aquela coisa mole, cinza, morta. E furada.

Todas as borracharias têm a sua banheira, é claro. Uma banheira que um dia – imagino – foi branca. Se você quer saber a cor de um burro quando foge, é aquela ali. Entre cinza e marrom. E a água onde vai ser enfiada a câmera de ar? Que cor é aquela? E onde foi que o sujeito arrumou a banheira? Comprou especialmente para aquele serviço, aquela serventia? Mas é eficiente. Logo vemos as bolhinhas de ar subindo pelo furo. O borracheiro coloca o dedo no furinho e te olha. Apenas olha. Todo mundo entende aquele olhar.

Neste momento eu pergunto: os pneus já existem há mais de cem anos. Ninguém se deu ao trabalho de inventar uma outra engenhoca para descobrir onde fica o furo?

Aí ele saiu pingando com a nossa câmera de ar pelo chão, notadamente nos nossos sapatos. Enxuga. Coloco numa máquina de tortura, passa uma cola e junto um pedacinho de borracha. Comprime aquilo. Chega a doer. Aquilo esquenta, sai fumacinha.

É o momento de olharmos as mulheres peladas (e já sujas) pelas paredes. Calendários dos anos 90 e até oitenta. Mocinhas que hoje já devem ser avós, ali, testemunhas discretas de nossos furos.

Tem também um jornal de esportes do dia por aqui, cheio de impressões digitais. Não dá mais para ler as notícias que ficam à direita e à esquerda da página. Sentar, nem pensar. Agora ele enche de novo a câmera. Mais do que a gente imagina. A impressão é que aquilo vai estourar no nosso rosto. Mas – incrível – não estoura.

Enfia lá dentro de novo. Enche pela terceira vez. Ao se ajeitar lá dentro, a borracha dá um inesperado estouro e se acomoda. Coloca o bico no lugar. Pega um aparelhinho e vê a pressão. Tudo isso muito rápido, com muita eficiência, sem cursar nenhuma faculdade. Mas você sente que o cara é competente, é pós-graduado.

É aí que ele pega o nosso estepe e balança a cabeça negativamente. Você entende, o estepe está mesmo pela hora da aposentadoria. Negocia ali na calçada enquanto coloca o pneu no lugar. Você acaba comprando outro estepe.

Mas só quando você chega em casa é que você percebe que também está todo sujo, apesar de não sentar e nem encostar em nada.

E pensa naqueles dois que te salvaram a vida. Admiro estes homens. São meus heróis. Ao contrário do Stédeli, eles não precisam evoluir. Pra que?

 

O texto acima foi extraído da coluna que o escritor mantém no jornal “O Estado de São Paulo”. Disponível em: http://www.marioprataonline.com.br/

Sugerido por Lúcia Kistner, integrante do Comitê Regional do Proler pela Biblioteca Pública Municipal Dom Daniel Hostin, via Prefeitura de Gaspar.

 

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