por Suzana Mafra

Ler teatro, eis a questão

A quarta e última noite de evento do 15º Encontro Regional do PROLER começou mais doce, com o bolo de aniversário pelos 10 anos de Comitê do PROLER. Sandra Cristina da Silva, coordenadora do Comitê, serviu o primeiro pedaço ao palestrante da noite, Fabiano Tadeu Grazioli.

Em seguida, o grupo Amigos da leitura, de Gaspar, fez a leitura impecável da obra Tempo de voo, de Bartolomeu Campos de Queirós, realizada em duas vozes, uma interpretando o menino, a outra, o ancião.

Fabiano Grazioli, palestrante da noite, enfatizou que é possível e apropriada a leitura de textos de dramaturgia na escola, lamenta que a própria teoria da literatura, não trata da leitura desse texto, dificultando ainda a prática da leitura dos textos de teatro nas escolas. Fabiano sempre se interessou pela leitura de textos de teatro e questionava por que as escolas não se apropriavam dessas leituras. Certa vez, partilhou esse estranhamento com Miguel Rettenmaier (esteve no PROLER 2011), ao que Miguel lhe respondeu: isso daria um tema para pesquisa de mestrado. Foi o que aconteceu, Fabiano pesquisou o texto teatral e a formação do leitor em sua dissertação.

O palestrante sugeriu o jogo teatral e a leitura dramática como estratégias de aproximações de leitura de textos dramáticos para jovens leitores (a partir dos doze anos). Disse que existem vários textos bons de autores brasileiros disponíveis na internet e publicados em livros. Citou como exemplo os textos de Plínio Marcos. Atualmente, Fabiano desenvolve pesquisa sobre leitura de texto de teatro para crianças. Segundo ele, há diversos livros de teatro para crianças sendo publicados. Após a palestra, autografou seu livro Teatro de se ler: o texto teatral e a formação do leitor.

O Encontro Regional do PROLER é pensado e formulado pelos integrantes do Comitê nas reuniões mensais, durante o ciclo de um ano. Os integrantes colaboram de muitas formas para dar conta das inúmeras tarefas que envolvem um evento desse porte. Assim, a cada Encontro, diversas pessoas se dirigem ao evento, vindas das cidades vizinhas e de Blumenau. Pessoas que trabalham o dia inteiro para, durante quatro noite, aprender sobre livros e leitura, vivenciar arte, fazer amigos, comprar livros, ganhar autógrafos.

Não é possível entrar num Encontro do PROLER e sair igual, pois somos transformados. No caminho de casa, após cada noite de evento, por vezes ficamos falantes, porque a garganta tá cheia, precisando partilhar, noutras, voltamos bem quietos: o ser em caos se transformando em estrela incandescente (Nietzsche).

Suzana Mafra é escritora e integrante do Comitê do PROLER



Livro: objeto de arte

A terceira noite do PROLER foi pura arte. O evento começou com a exibição do curta-metragem de animaçãoThe fantastic flying books of Mr. Morris Lessmore (Os fantásticos livros voadores do Sr. Morris Lessmore), vencedor do Oscar 2012. Uma produção sensível e bem humorada sobre o livro e suas histórias.

Roger Mello, o palestrante da noite, subiu ao palco com uma pequena mala, da qual retirava livros para exemplificar seu discurso pautado no objeto de arte: o livro. Roger viajou no tempo para buscar elementos da história do livro, disse que a ilustração não é uma invenção recente e, que o texto não deixa de ser uma ilustração, referindo-se a mancha do texto sobre o papel.

Na segunda etapa da palestra, o autor exibiu imagens da flor do Cerrado, do projeto do arquiteto Niemayer para Brasília, e também de projetos e jardins projetados pelo paisagista Burle Marx. Roger é de Brasília, vai ver ele quisesse dizer: olha, essas são minhas influências. Em seguida, exibiu imagens dos seus livros, comentando os traços, as cores e a proposta de cada um. Dentre as obras exibidas, Meninos do mangue, Nau Catarineta, Contradança, João por um fio, Jardins (Rosena Murray) e Zoo (Guimarães Rosa).

O ilustrador-autor enfatizou a importância do uso de anotações e sugeriu a prática do registro por meio de desenhos. Disse que muitas vezes o próprio autor se surpreende com o riscado sobre o papel (Merleau-Ponty, no livro A prosa do mundo, trata dessa relação autor e obra). Ao final da palestra, a mediadora Carla Carvalho, reforçou a ideia de que o livro é um objeto de arte.

A noite fechou com a fantástica sessão de autógrafos. Em cada livro autografado, Roger fez uma dedicatória com ilustração (a minha é assim “ Para querida amiga Suzana com todo o mar do Roger Mello”, acompanhada de uma baleia desenhada). Coisas de PROLER!

Suzana Mafra é escritora e integrante do Comitê do PROLER



Qualidade e sensibilidade

A segunda noite de evento do 15º Encontro Regional do PROLER começou com a exibição do filme A palavra conta (Movimento por um Brasil literário). O documentário exibe cenas com Bartolomeu Campos de Queirós, intercaladas por depoimentos de mediadores de leitura.

Em seguida, a plateia assistiu a graciosa leitura do livro O peixe e o pássaro, de Bartolomeu, pelo grupo Uni Duni Tê, de Timbó, que é dirigido pela integrante do Comitê do PROLER, Gilmara Mendes. A impecável e poética apresentação, pode-se dizer, refletiu a maturidade da diretora, que vem se dedicando aos assuntos literários desde o início do Comitê.

A educadora Rosângela Cristina Machado Bertram, mediadora, introduziu o tema da palestra da noite de maneira singular, desatando literalmente nós e criando, assim, uma ponte entre plateia e palestrante. Ieda de Oliveira, escritora e compositora, iniciou a conversa contando à plateia como foi seu encontro com o tema Qualidade na literatura infantil e juvenil.

Segundo Ieda de Oliveira, os parâmetros para a qualidade na literatura infantil e juvenil não podem ser os mesmos da literatura adulta. Ela enfatizou que a margem de manobra para o escritor da literatura infantil e juvenil é menor do que o da literatura adulta, concluindo que é mais difícil escrever para crianças que para adultos.

Parte da palestra de Ieda foi dedicada para apresentar seus livros de literatura infantil e juvenil. A autora revelou detalhes das situações que a levaram a escrever determinados livros, e também, do processo de criação. Por fim, apresentou seu mais recente livro Viva o reino da terra, que acompanha um CD, e também um marcador de páginas, com sementes para plantio.

Para fechar a noite com chave de ouro, houve sessão de autógrafos, com direito a abraço e fotos com a simpática escritora.

Suzana Mafra é escritora e integrante do Comitê do PROLER



Fome de ler e transcender

Primeira noite de evento do 15º Encontro Regional do PROLER abre com música. A Banda Municipal de Blumenau executou músicas de diversos estilos, incluindo a canção We are the world, composta por Michael Jackson e Lionel Richie. A banda, que neste ano completa 50 anos de existência, encantou a plateia e foi aplaudida de pé.

Neste ano, o evento homenageia o escritor Bartolomeu Campos de Queirós. Lembrado por meio de um banner com foto e frase do escritor e também por um varal composto de  livros do autor. Após a apresentação da banda, Aroraima Prado, integrante do comitê do PROLER, fez a leitura da obra  Coração não toma sol, de Bartolomeu.

O mestre de cerimônias apresentou um resumo dos dez anos de PROLER, em seguida, os integrantes do comitê foram apresentados. A coordenadora do Comitê, Sandra Cristina da Silva, ressaltou em seu discurso, que nós, mediadores de leitura, precisamos desatar os nós existentes entre nós e os leitores, para que a possibilidade da leitura aconteça.

Viegas, mediador da noite, iniciou a palestra com algumas provocações direcionadas à palestrante, Maria Antonieta da Cunha, coordenadora geral da Diretoria do Livro, leitura e literatura do Ministério da Cultura. Essas provocações giraram em torno da pesquisa Retratos da leitura no Brasil, realizada pelo Instituto Pró-livro, da qual Maria Antonieta é consultora.

A palestrante afirmou que não se surpreendeu com os índices baixos de leitura apontados na última pesquisa, ou seja, não é novidade que o brasileiro lê pouco. Ela esclareceu que algumas quedas nos índices se justificam pela metodologia utilizada e, também, por diversos fatores, como a época em que foi aplicada, ampliação da faixa de população com mais idade, dentre outros. Segundo ela, é difícil avaliar a leitura, pois há muito mais nuances a serem observadas,  além das possíveis de constatação em uma pesquisa.

Maria Antonieta da Cunha fez referência ao livro (e também ao filme) O carteiro e o poeta, de Antonio Skármeta, que originalmente se chamou Ardiente paciencia, para justificar que é disso que o mediador de leitura precisa: ardência e paciência. O trabalho de formar leitores é um caminho longo, mas apaixonante, com possibilidade de flores ao final.

A palestrante centrou sua apresentação nos quatro eixos do Plano Nacional do livro e Leitura (PNLL): Democratização do acesso, Fomento à leitura e à formação de mediadores, Valorização do livro e comunicação e Desenvolvimento da Economia do Livro. Ao final, defendeu que a biblioteca deve ter a cara do lugar, ou seja, ter acervo condizente com as necessidades da comunidade em que está inserida, e isso requer investimento. Disse que é preciso haver “cabeças boas” atuando como mediadores de leitura, não necessariamente um professor ou bibliotecário, pois nem todo professor e bibliotecário são apaixonados por leitura. Assim, o mediador de leitura ideal seria aquele que tem ardência e paciência, aquele que já vivenciou a transcendência da arte de ler, sentiu a fome da leitura e, por isso, quer conquistar o mundo de leitores.

Suzana Mafra é escritora e integrante do Comitê do PROLER

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